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O Brasil é o segundo maior mercado do mundo para a SaaS Canva

O Brasil é o segundo maior mercado do mundo para a SaaS Canva

17 AGO 2026

O que uma empresa brasileira pode copiar ao contrário para ganhar mercado nos EUA?

O Brasil é o segundo maior mercado do Canva no mundo. É uma afirmação oficial da própria liderança da empresa.

"Brasil is Canva's second largest market in the world. We have around 150 people working here", disse Alberto Ceresa, country manager do Canva no Brasil, em entrevista durante o Web Summit.

Para entender o tamanho dessa operação: a empresa hoje tem um escritório próprio na esquina da Avenida Faria Lima com a Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, com uma estrutura local de criação e estratégia que já ganhou prêmios internacionais de marketing.

A meta declarada por Ceresa é ambiciosa: "today, we have one in every eight or nine people using Canva in Brazil. I want to reach one in two people."

A empresa fechou 2025 com mais de 265 milhões de usuários ativos por mês e mais de 31 milhões de usuários pagantes, com uma receita recorrente anual de 4 bilhões de dólares, segundo o co-fundador e COO Cliff Obrecht em entrevista ao TechCrunch. Desse total, 500 milhões de dólares já vêm de empresas com mais de 25 assentos, um segmento que cresceu 100% no último ano.

Como uma empresa nascida na Austrália, sem time de vendas tradicional, conseguiu esse nível de penetração em um país como o Brasil? E principalmente, o que uma empresa brasileira que quer fazer o caminho inverso e entrar nos Estados Unidos pode copiar dessa estratégia?

A resposta está em um modelo de crescimento onde o próprio produto é o principal canal de marketing.

O que significa crescimento onde o produto vende sozinho

A maioria das empresas brasileiras B2B cresce com marketing que gera cadastro e vendas que fecham o negócio. O produto entra só no final.

O Canva fez o oposto. A filosofia declarada pela empresa é: "As a company philosophy, we have the freemium product, which is already very solid."

Freemium significa que a versão grátis já resolve um problema real de verdade, não é só uma demonstração. A versão paga libera recursos extras como kits de marca, armazenamento e modelos premium.

A biblioteca do Canva inclui milhões de modelos prontos para marketing, apresentações e redes sociais, e a plataforma está presente em mais de 190 países e suporta mais de 100 idiomas.

O usuário não precisa falar com ninguém para ter valor. Ele entra, busca "apresentação para cliente" ou "post para Instagram", edita um modelo pronto e publica. Esse ciclo de valor em 5 minutos é o que faz o produto se espalhar.

Para uma empresa brasileira que quer internacionalizar, essa é a primeira quebra de paradigma. Seu produto precisa entregar valor para um americano em 5 minutos, sem reunião de vendas, sem manual em português traduzido e sem depender de um time de suporte no fuso do Brasil.

Se sua versão grátis é um teste de 7 dias que expira, ou que só mostra o que o produto faz mas não deixa publicar, você não tem uma estratégia onde o produto vende sozinho. Você tem uma demonstração.

Pilar 1: Modelo pronto é canal de aquisição, não apenas recurso

O erro mais comum de internacionalização de marketing de conteúdo é traduzir o blog do Brasil para o inglês com um plugin e esperar que o Google dos EUA te entregue tráfego.

O Canva nunca fez isso. A estratégia de crescimento no início, explicada pelo próprio COO, foi entender intenção de busca e entregar um modelo editável direto.

"So we drove a lot of early days in Canva through Google, really understood people's search intent, and delivered them content that they could then go into our product and edit. And so we really see ChatGPT or any of the LLMs top of the funnel acquisition platforms", disse Cliff Obrecht.

Tradução prática: eles identificaram o que as pessoas buscavam, como "convite de aniversário" ou "currículo simples", e entregaram uma página que já era o próprio produto editável.

Hoje eles fazem a mesma coisa com inteligência artificial. Até outubro de 2025, os usuários tiveram mais de 26 milhões de conversas com o aplicativo do Canva dentro do ChatGPT, e o Canva se tornou um dos 10 domínios mais referenciados pelo ChatGPT. O tráfego vindo de indicações de modelos de linguagem já está na casa de dois dígitos percentuais para eles.

Para você que quer levar seu produto brasileiro para fora, a lição de marketing é direta:

Não crie um artigo em inglês chamado "como fazer [sua categoria]". Crie 20 modelos prontos em inglês que resolvem exatamente o que seu cliente americano já busca.

Um modelo pronto é uma página de destino com alta intenção de uso. Cada modelo é uma porta de entrada. É assim que você entra no Google dos EUA sem ter que competir de frente com quem tem um domínio .com com 10 anos de autoridade. Você compete na cauda longa da intenção.

Pilar 2: Campanha local, não campanha global traduzida

O segundo erro clássico de quem internacionaliza é levar a campanha que funcionou no Brasil para os EUA com legenda em inglês.

No Brasil, o Canva fez o oposto de uma campanha global. Eles criaram uma estratégia focada em redes sociais, feita 100% aqui.

Segundo o country manager: "The Social First strategy is made here in Brazil. We don't invent characters; we leverage stories that already exist, as we did with Xuxa, Gracyanne Barbosa and, more recently, Agostinho Carrara."

Eles não inventaram personagens. Eles se conectaram a conversas que já existiam na cultura popular brasileira. O resultado foi um vídeo de mais de quatro minutos com alta taxa de retenção, algo raro em redes sociais.

Lição inversa para quem vai para fora: seu produto não vai viralizar nos EUA porque você traduziu seu meme do Brasil. Ele vai viralizar porque você entrou em uma conversa que já existe no Reddit, no TikTok e no LinkedIn americano.

Se você vende um software para clínicas, por exemplo, não traduza seu post sobre "como lotar agenda com WhatsApp". Entenda que nos EUA a conversa é sobre "no-show rate" e "patient intake forms". É outra dor, outro vocabulário, mesmo problema.

Um produto que se espalha sozinho sem distribuição local não escala. O Canva no Brasil entendeu que precisava de um time local de 150 pessoas para criar relevância cultural. Você não precisa de 150 pessoas nos EUA para começar, mas precisa de 150 conversas locais mapeadas.

Pilar 3: Educação e microempreendedor como motor de expansão

Outro ponto que explica a penetração do Canva no Brasil e que é ignorado por empresas B2B brasileiras: o foco em educação e em microempreendedores.

Ceresa explica o perfil do usuário: "We have many micro-entrepreneurs. Small businesses represent more than 90% of open companies and are responsible for more than 25% of the national GDP. It's a giant market that has evolved a lot."

Além disso, a empresa oferece assinatura gratuita para instituições e estudantes, reforçando o compromisso com a democratização do design e o crescimento orgânico no país.

Essa estratégia cria um efeito de base. O estudante que aprende Canva na escola vira o microempreendedor que usa Canva no seu negócio. O microempreendedor vira a pequena empresa que assina o plano de times. É um funil de longo prazo onde o produto educa o mercado.

Para uma empresa brasileira que quer ir para os EUA, a pergunta de marketing é: quem é seu equivalente a estudante e microempreendedor lá fora?

Muitas empresas B2B brasileiras tentam ir direto para a grande empresa americana, competir com quem já tem 95% das empresas Fortune 500 como clientes, como é o caso do Canva. O Canva hoje reporta que 95% das Fortune 500 usam a plataforma em alguma capacidade.

Você não vai começar por lá. Você começa pela base que está sendo ignorada pelos grandes. Nos EUA, isso pode ser o criador solo, a agência de 2 pessoas, o professor, o estudante de MBA. É a mesma lógica que funcionou no Brasil, só que ao contrário.

Pilar 4: Preço que cabe no bolso local e posicionamento como plataforma de inteligência artificial

Nos últimos dois anos, o Canva fez dois movimentos grandes. O primeiro foi sair de uma plataforma de design para uma plataforma de produtividade, com o lançamento de funções como planilhas e documentos. O segundo foi se posicionar como uma plataforma de inteligência artificial que trabalha com design.

Segundo Ceresa: "Canva is today the third most used AI platform in the world, behind only ChatGPT and Gemini. Our goal is to solve workflow fragmentation: the user creates, edits and publishes everything in one place, without having to switch between multiple tools."

Hoje, a ferramenta de criação de sites e mini aplicativos com inteligência artificial do Canva já tem mais de 10 milhões de usuários ativos mensais.

E mesmo com todo esse investimento em tecnologia, avaliado em bilhões de dólares, a empresa mantém a filosofia de preço acessível. Em entrevista, ao ser questionado se os preços de assinatura subiriam, Ceresa respondeu: "There is an effort to ensure that prices are always in line with what the public can pay."

Essa lógica de preço local também aparece na estratégia global. Para aumentar a base de usuários pagantes, o Canva introduziu assinaturas com preços mais baixos em países como Paquistão, Uruguai, Marrocos e Jamaica, segundo o TechCrunch.

Para quem internacionaliza, a lição é dupla. Primeiro, posicionamento. Se você chega nos EUA dizendo "somos líderes no Brasil", você é irrelevante. Se você chega dizendo "somos a plataforma que resolve a fragmentação de fluxo de trabalho", você entra na conversa global de inteligência artificial e produtividade. Segundo, preço. O Canva não converte dólar para real. Ele encontra o preço ideal para o poder de compra local. Você precisa fazer o oposto: não converter real para dólar. Você precisa encontrar o preço ideal que um americano já paga por aquele tipo de solução.

O que fazer agora: checklist de marketing para internacionalização inspirado no Canva

  1. Auditoria de valor em 5 minutos: Um americano consegue entrar no seu produto, sem falar com ninguém, e publicar algo útil em 5 minutos? Se não, redesenhe seu onboarding antes de gastar um dólar em anúncios.

  2. Transforme 1 caso de uso em 20 portas de entrada: Pegue seu caso de uso mais forte e crie 20 modelos prontos, planilhas, checklists ou páginas editáveis em inglês nativo que resolvem buscas específicas. Cada uma é uma página de aquisição.

  3. Mapeie 50 conversas locais, não 50 palavras-chave: Vá ao Reddit, TikTok e LinkedIn americano e liste 50 conversas reais onde sua dor aparece. Não traduza sua dor brasileira. Aprenda o vocabulário local.

  4. Escolha sua base ignorada: Defina quem é seu estudante e microempreendedor nos EUA. É para eles que você vai fazer sua versão grátis completa e seu programa de educação. A grande empresa vem depois.

  5. Reescreva seu posicionamento de líder local para resolvedor de fragmentação global: Troque "líderes no Brasil" por "we help [seu público americano específico] create, edit and publish everything in one place".

O Brasil provou que quando o produto entrega valor sozinho, tem modelos prontos que capturam intenção de busca e tem distribuição com relevância cultural local, ele vence barreira de idioma e de marca.

É exatamente o mesmo jogo para uma empresa brasileira que quer ganhar mercado nos EUA. Só que ao contrário.

Fontes:

  1. Canva confirma que Brasil é o segundo maior mercado do mundo, com 150 pessoas no time local, escritório na Faria Lima e meta de 1 em cada 2 brasileiros usando a plataforma: https://lnginnorthernbc.ca/2026/06/20/canva-reinforces-operations-in-brazil-and-aims-for-a-new-phase-with-artificial-intelligence/

  2. Canva com mais de 265 milhões de usuários mensais, 31 milhões pagos, 4 bilhões de dólares em receita recorrente, 500 milhões de dólares em receita B2B com crescimento de 100% e assinaturas com preços mais baixos em Paquistão, Uruguai, Marrocos e Jamaica: https://techcrunch.com/2026/02/18/canva-gets-to-4b-in-revenue-as-llm-referral-traffic-rises/

  3. Biblioteca com milhões de modelos prontos, presença em mais de 190 países e 100 idiomas, 260 milhões de usuários mensais e 95% das Fortune 500: https://techrt.com/canva-statistics/

  4. Estratégia Social First feita no Brasil e uso de histórias locais como Xuxa e Agostinho Carrara: https://lnginnorthernbc.ca/2026/06/20/canva-reinforces-operations-in-brazil-and-aims-for-a-new-phase-with-artificial-intelligence/

  5. Perfil de microempreendedores representando mais de 90% das empresas e mais de 25% do PIB e oferta gratuita para educação: https://lnginnorthernbc.ca/2026/06/20/canva-reinforces-operations-in-brazil-and-aims-for-a-new-phase-with-artificial-intelligence/

  6. Posicionamento como terceira plataforma de inteligência artificial mais usada do mundo e ferramenta de criação com 10 milhões de usuários mensais e 26 milhões de conversas no ChatGPT: https://lnginnorthernbc.ca/2026/06/20/canva-reinforces-operations-in-brazil-and-aims-for-a-new-phase-with-artificial-intelligence/ e https://techcrunch.com/2026/02/18/canva-gets-to-4b-in-revenue-as-llm-referral-traffic-rises/

    Conclusão e como aplicar na sua empresa

    O Brasil provou que quando o produto entrega valor sozinho, tem modelos prontos que capturam intenção de busca e distribuição com relevância cultural local, ele vence a barreira de idioma e de marca.

    É exatamente o mesmo jogo para uma empresa brasileira que quer conquistar mercado nos EUA. Só que ao contrário.

    Se você quer entender como aplicar esse mesmo modelo de crescimento, em que o produto vende sozinho, ao seu caso, com auditoria de posicionamento, mensagem e canais para o mercado americano, agende uma avaliação gratuita com a Dolariz.

    Na avaliação, vamos analisar seu site, seus modelos prontos e sua estratégia de conteúdo atual e te mostrar onde estão os gargalos que impedem você de gerar demanda nos EUA sem depender de um time local.

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Pedro Paiva

Pedro Paiva · DOLARIZ

Estratégia de expansão internacional para SaaS brasileiras.

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